Cogumelo Paris Foyot... ou, pote de poeira

"Mais nada... Um pouco de sol, um pouco de brisa, umas árvores que emolduram a distância, o desejo de ser feliz, a mágoa de os dias passarem, a ciência sempre incerta e a verdade sempre por descobrir... Mais nada, mais nada... Sim, mais nada..."

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

Estou coberto de poeira de sentimentos e sensações. Um desassossego no avesso do peito e um silêncio branco além das montanhas.

Há pouco mais de cinco anos, fiz uma receita parecida utilizando carne, inspirada no livro o Cemitério de Praga de Humberto Eco - Tornedor Foyot (clique sobre o nome para acessar a receita). Como não como mais carne, adaptei-a utilizando Cogumelo Paris cortado em lâminas.

Para a receita, usei uns dez Cogumelos Paris fresco cortado em lâminas, dois dentes de Alho socados, duas colheres de sopa de Manteiga, Pimenta do Reino à gosto, Flor de Sal à gosto, um pouco de Vinho Tinto, cinquenta gramas de Queijo Gruyère ralado, cinquenta gramas de Pão triturado, transformado em farinha e duas Batatas Inglesa.




Misturei a queijo gruyère ralado à farinha de pão e reservei. Descasquei as batatas e cortei as laterais e faces, formando um cubo retangular. Cozinhei-as no vapor, até estarem macias e reservei. Em uma panela, coloquei as duas colheres de manteiga e refoguei o alho, adicionando pimenta do reino e a flor do sal. Antes de dourar o alho, acrescentei as lâminas de cogumelo paris, misturando e deixando refogar por uns dois minutos. Acrescentei o vinho e tampei a panela, para reduzir o vinho. Retirei as lâminas de cogumelo paris da panela e reservei a manteiga onde foi refogado. Em uma forma, arrumei as batatas uma ao lado da outra, com um pequeno espaço entre elas. Derramei por cima a manteiga onde as lâminas de cogumelo foram refogadas e arrumei as lâminas de cogumelo por cima. Em seguida, salpiquei por cima dos cogumelos a farinha de queijo gruyère e levei ao forno em temperatura alta para dourar.





"Viver do sonho e para o sonho, desmanchando o Universo e recompondo-o, distraidamente confere mais apego ao nosso momento de sonhar. Fazer isso consciente, muito conscientemente, da inutilidade de o fazer. Ignorar a vida com todo o corpo, perder-se da realidade com todos os sentidos, abdicar do amor com toda a alma. Encher de areia vã os cântaros da nossa ida à fonte e despejá-los para os tornar a encher e despejar, futilissimamente.

Tecer grinaldas para, logo que acabadas, as desmanchar totalmente e minuciosamente.

Pegar em tintas e misturá-las na paleta sem tela ante nós onde pintar. Mandar vir pedra para burilar sem ter buril nem ser escultor. Fazer de tudo um absurdo e requintar para fúteis todas as estéreis horas. Jogar às escondidas com a nossa consciência de viver.

Ouvir as horas dizer-nos que existimos com um sorriso deliciado e incrédulo. Ver o Tempo pintar o mundo e achar o quadro não só falso mas vão.

Pensar em frases que se contradigam, falando alto em sons que não são sons e cores que não são cores. Dizer - e compreendê-lo, o que é aliás impossível - que temos consciência de não ter consciência, e que não somos o que somos. Explicar isso tudo por um sentido oculto e paradoxo que as coisas tenham no seu aspecto outro-lado e divino, e não acreditar demasiado na explicação para que não hajamos de a abandonar.

Esculpir em silêncio nulo todos os nossos sonhos de falar. Estagnar em torpor todos os nossos pensamentos de acção.

E sobre tudo isto, como um céu uno e azul, o horror de viver paira alheadamente."

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego






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